A CATÓLICA E A COMUNISTA
Consegui concluir outro curso universitário, dessa vez de História, no IFCS. A batalha foi árdua, mas venci mais um desafio na minha vida.
Na verdade, descobri que o maior desafio não era apenas me formar em História, mas ser presença de Deus num ambiente totalmente desfavorável à Igreja Católica.
Encontrei o Movimento Comunhão e Libertação (fundado na Itália pelo Monsenhor Luigi Giussani em 1954) em 15 de janeiro de 1989. Foi um encontro com uma companhia que transformou a minha vida!
Entrei no IFCS com isenção de vestibular (já era formada em Jornalismo pela FACHA) no segundo semestre de 1993. O curso sempre foi muito puxado, pois havia diversos textos para ler em um curtíssimo intervalo de tempo.
Em 1994, a professora Anita Leocadia Prestes, filha de Luiz Carlos Prestes, pediu transferência para o IFCS. Comecei a ouvir comentários dos meus colegas de que seu curso de História do Brasil III era muito bom e, a partir daí, mesmo sem conhecê-la pessoalmente ainda, passei a ficar fascinada por ela. Nosso primeiro encontro foi no banheiro do 3º andar do IFCS. Eu lhe perguntei:
- Você é Anita?
Ela responde:
- Sim!
Para variar, eu me apresento à filha do Velho dizendo:
- Eu sou Maria Teresa, a Tártara do IFCS!
Ela, como os outros professores, quis saber o porquê do meu interesse pelos tártaros. Culpado disso foi o Marco Polo! Bom, graças a Deus meu biotipo lembra mais o de uma tártara do que o de uma saxã ou viking. Tártara loura de olhos azuis seria um troço bem esquisito mesmo!
Inscrevi-me em História do Brasil III no segundo semestre de 1996. Emocionalmente abalada devido a novas situações que precisei enfrentar e tendo contraído uma bronquite, mesmo lendo os textos recomendados pela Anita, precisei faltar muitas aulas para me tratar em casa e meu rendimento, obviamente, foi ruim. Acabei sendo reprovada pela Anita, mas, apesar da reprovação, fiquei com a certeza de que saí de seu curso aprendendo.
Um ano depois, novamente encarei a filha do Velho quando bem poderia ter optado pelo professor substituto no curso noturno. Mas a admiração e o respeito falaram mais alto! Como havia sido reprovada antes, eu me recusei a chegar mais perto dela com medo de que a Anita pudesse pensar que era só bajulação. Não! Tudo o que eu queria era levar a Palavra de Deus a uma mulher castigada pelo sofrimento, que não conheceu a mãe, Olga Benario, guerreira incansável que morreu injustamente numa câmara de gás em 1942, perdeu a avó Leocadia em 1943, quando ainda era menina, e viu o pai, Luiz Carlos Prestes, sendo implacavelmente perseguido pela ditadura militar. Conviveu pouco com ele, que veio a falecer em março de 1990, aos 92 anos.
Com a audácia ingênua que caracteriza alguém que é de Deus, mesmo sabendo que a Anita tem uma sólida formação marxista, ou seja, é atéia, não desanimei e procurei levar Cristo a ela, que não crê Nele. Mas a “Guerreira Nota 1000” ainda não aprendeu a amar e a abrir seu coração para a Verdade. Mas o Senhor do Cosmos e da História é paciente! Ele chama quem Ele quer! Com certeza, não foi sem razão que eu e a Anita nos conhecemos! Fui chamada por Deus a rezar por essa mulher muito marcada pelo sofrimento desde a infância.
Nós temos algo em comum: 1989 foi o ano mais importante de nossas vidas. Eu, porque encontrei a Cristo através do Movimento Comunhão e Libertação e a Anita porque, em 29 de novembro, defendeu brilhantemente a sua tese de Doutorado na UFF sobre a Coluna Prestes.
No dia 20 de março, no Salão Nobre do IFCS, na cerimônia de formatura, a católica e a comunista se encontrarão face a face.
Sabendo que sou eu a pessoa que mais gosta da Anita entre professores, alunos e funcionários, fui logo escolhida pela turma para homenagear a filha do Velho. Tudo o que desejo para a Anita é que ela encontre a felicidade que nunca teve! O homem foi feito para a alegria e não para a tristeza. Aliás, Régine Pernoud dizia que o oitavo pecado capital é justamente a tristeza!
Deus uniu duas pessoas cujas convicções são totalmente opostas! Eu sigo a Cristo, enquanto que a Anita optou por seguir a si mesma! Mas, ainda assim, o Senhor do Cosmos e da História permitiu que uma fosse colocada na vida da outra! A razão? Ao homem não é dado conhecer os desígnios de Deus!
Que Ele abençoe esse grande momento!
MARIA TERESA INNECCO CORRÊA - RIO DE JANEIRO, RJ.
Crônica originalmente escrita antes da minha formatura em 1998.
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